A comunicação entre as pessoas tornou-se, de tal forma, insustentável que uma simples troca de ideias — sem que as partes se agridam mutuamente por pensarem de forma diferente — transformou-se num verdadeiro acto filosófico. O que aconteceu de tão grave para que o mundo mental do outro deixasse de ser um cosmos a descobrir e passasse a ser visto como um veneno para o nosso próprio mundo? Por que razão nos isolámos de forma tão hermética dentro das nossas próprias visões de mundo?
Para compreendermos este fenómeno, imaginemos o ser humano no tempo das cavernas. Quando necessitava de sair para o espaço comum, esse humano enfrentava perigos reais, como o leão. Se ele possuísse ferramentas para enfrentar os desafios, sentia-se confiante.
A diferença reside na evolução dessas ferramentas: outrora, tínhamos uma pedra afiada; hoje, temos o equivalente a um drone. Com ele, é possível detectar o perigo de longe e aniquilá-lo sem sequer nos colocarmos em risco. O problema surge quando percebemos o potencial desta “arma” preventiva. Deixámos de esperar por sinais reais de ameaça e passámos a manter uma frota constante de drones a sobrevoar os céus, prontos para disparar à mínima interpretação de perigo.
Entrámos numa fase de hipervigilância. Hoje, com o auxílio de algoritmos e da inteligência artificial, treinamos os nossos “drones mentais” para analisarem microexpressões do outro e anteciparem um ataque. Contudo, essa microexpressão pode ser apenas um sinal de fome ou distracção, mas o nosso sistema já está treinado para detectar uma ofensa onde ela nem sequer existe.
Tornámo-nos supersensíveis à palavra. A nossa “histeria interpretativa” transformou tudo em fonte de perigo. Até a nossa “gruta” — que deveria ser um refúgio seguro — deixou de o ser, pois passámos a desconfiar de cada som. Onde antes ouvíamos apenas o eco de gotas de humidade a percorrer as pedras, agora o nosso cérebro interpreta o ruído como o galope de leões em nossa perseguição.
Na nossa mente, já não precisa de ser o leão a rugir, basta que interpretemos o som da água na gruta, como sendo o rugido do leão. É isto que tornou as pessoas paranóicas.
O mundo tornou-se perigoso em cada esquina, mas o que raramente percebemos é que fomos nós que alimentámos essa percepção nas nossas próprias mentes. Este cenário de ameaça constante não é, necessariamente, uma realidade externa inevitável, mas sim uma poderosa criação da nossa psique, armada com ferramentas de destruição preventiva que nos impedem de simplesmente… conversar.

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