Corpo e a Expressão

O homem expressa-se através do seu corpo já na Idade da Pedra.

O corpo sempre foi ferramenta para o homem dar palco à sua imaginação, enquanto que – ao mesmo tempo – o corpo era palco, em si, de imaginação.

Usamos o corpo, desde sempre, para ornamentar a persona artística, seja através de adereços, pinturas ou outras representações simbólicas.

O corpo era – e continua a ser – veículo de expressão de emoções e materialização simbólica do produto da imaginação.

Na coreografia, usamos os movimentos do corpo para criar sensações. Sensações essas sentidas pelo próprio criador da obra artística e pelo público que assiste e se deleita.

Na música, tanto um pianista como um cantor pop usam os movimentos do seu corpo para acrescentar dramatismo, ritmo e atenção à sua criação. O pianista, com as expressões de rosto enquanto usa as teclas do piano. A expressão das mãos e a velocidade dos movimentos, para dar ritmo visual ao impacto musical.

Um cantor pop adorna o corpo com adereços que contribuam para a mensagem a passar. Muitas vezes, o próprio jogo sedutor entre a quantidade de adereços e a ausência deles em diferentes zonas do corpo cria outra camada de mensagem. De comunicação de emoções.

Na representação – sob a forma de teatro e cinema, por exemplo –, o homem utiliza-se a si mesmo, por inteiro, para contar uma história. A sua voz, o seu corpo, os adereços que coloca no corpo e o movimento de todo o corpo em conjunto com a voz.

Na fotografia, para terminar os exemplos, a situação é mais explícita do que nos exemplos em cima, que são mais implícitos.

Na fotografia, o homem procura, literalmente, desenhar no corpo uma imagem visual, recorrendo à dinâmica luz/sombra, para criar essa imagem visual. O corpo, na fotografia, torna-se a tela do pintor, onde o desenho não é feito com tinta, mas com luz e sombra.

Contudo, também esse desenho é feito com adereços que se colocam no corpo e, até, com a forma como esses adereços combinam visualmente com o ambiente à volta. É a isto que chamamos, por exemplo, fotografia de moda. Uma sinfonia – deseja-se perfeita – entre a expressão corporal, os adereços colocados no corpo e o ambiente à sua volta.

Mas há um pormenor, quando o homem utiliza o seu corpo nu para fazer a sua criação artística. Para expressar aquilo que pretende expressar.

Durante todo o meu percurso artístico, sempre considerei abjecto que profissionais na área artística tivessem pudor com a utilização do seu corpo como ferramenta artística. Estamos a falar do seu corpo a nu. Sejam actores de cinema, televisão, actores para fotografia, etc., etc.

Quando falamos de nudez, parece que nos esquecemos do que se trata tudo isto. Não é do “mostrar o corpo”. Um artista que se veja como profissional não olha para a moralidade social no que toca à utilização do seu corpo. Olha, única e exclusivamente, para a melhor forma de representar a sua mensagem, a sua obra artística.

Muitas vezes, esquecemo-nos, enquanto criadores, de que não estamos a “usar” a outra pessoa. A pessoa em si. Estamos a “usar” as capacidades artísticas dessa pessoa, para exibir, com o máximo potencial possível, a nossa obra.

Quando eu estou a ver uma obra artística, eu não estou a pensar no “corpo do Nuno Lopes” ou no “corpo da Jessica Athayde”. Eu estou a absorver a persona que eles criaram e a perceber se estou a gostar da história que me estão a contar.

É exactamente a mesma coisa quando eu, enquanto fotógrafo, estou a fotografar a Sara Sampaio. Eu “não quero saber” da Sara Sampaio. Eu quero é saber das capacidades performativas da Sara Sampaio e de como ela consegue usar o seu corpo para exprimir, tão eficazmente quanto possível, aquilo que precisa de ser expresso, para “vender o produto” – literalmente, diria.

No acting que envolve nudez – sejam filmes, sejam fotografias –, é absolutamente incompreensível que – como referi – mesmo os actores profissionais se castrem a eles próprios por causa da pressão da moral social.

Claro está, o profissional tem todo o direito de recusar fazer aquele trabalho. Mas essa recusa é porque “não quer mostrar o corpo” ou porque não se revê, enquanto profissional, na temática da obra, no processo ou de qualquer outra forma? São coisas bem diferentes.

Quando eu fazia a minha fotografia de autor a modelos com o corpo totalmente nu, por mais controverso que soubesse que podia ser o resultado, tinha sempre bem ciente que estou a convidar uma pessoa, porque ela tem linhas e formas corporais que são importantes para eu conseguir exprimir a imagem visual que tenho na mente. De igual forma, reconhecia capacidades performativas às modelos que me eram úteis para a exigência do “papel”. Nunca, neste processo, se tratava do “corpo da Joana”. O meu olhar não estava centrado na pessoa que estava à minha frente, mas na forma como ela conseguia “usar-se” para, muitas vezes, de forma brilhante, conseguirmos produzir a obra.

Felizmente, a maior parte das pessoas com quem trabalhei sempre entendeu “mais ou menos” isto. Apesar de, confesso, nunca ter expressado tão claramente isto. Só recentemente comecei a expressar – através de ensaios – a minha visão de mundo. Tudo aquilo que, ao longo dos anos, ficou registado na memória RAM. Aqui vai: sabem como saber que está um sapo dentro do computador? Vemos que ele tem mais memória RAM. Peço desculpa, entusiasmei-me.

Voltando, parece-me, portanto, objectivamente penoso que continuemos a assistir a uma confusão no “mundo das artes”, em que aqueles que deviam ser os mais conscientes do que envolve o processo criativo, muitas vezes, são os que mais contribuem para o estigma social.

Aos artistas, pede-se a tarefa de concentrarem os seus esforços para explorar, tanto quanto possível, a sua criatividade, de forma a que consigam ser o veículo para filosofar através da arte.

Os artistas são agentes que podem – e devem – levantar questões (mesmo que sejam as suas mesmas) sobre a humanidade do homem… e a sua ausência. De explorar mundos imaginários, de questionar verdades ou, simplesmente, de entreter o povo.

Claro está, será sensato admitir que há limites, quanto mais não seja, parece-me que não pode ser aceite que se mate alguém para representar uma história de crime. Porque, ao matar alguém, não estamos a matar apenas a persona artística, mas o indivíduo em si, que dá corpo a essa persona.

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