Olhar para dentro, dói-te, porque construíste a tua autoimagem baseada na ideia de que és puro, bondoso, altruísta e do “bem”.
Construíste a tua autoimagem em função de uma moralidade que te empurrou para uma busca – dizes tu, espiritual – pela tua própria pureza do ser.
Ficaste a acreditar que tudo aquilo que fazes é pelo bem, pelo teu bem e pelo bem do outro. Pelo senso de justiça que herdaste e por acreditares que, se te portares bem, tens um lugar garantido no céu.
Pois bem, enganaste-te a ti mesmo.
Todos os dias, se olhares para as tuas ações, percebes as tuas incoerências, incongruências, os bocadinhos de mal que vais fazendo aos outros e que, afinal, ao final de cada dia, não és assim tão boa pessoa como consideras.
Também foste ensinado a não olhar para dentro de ti, com olhos de ver.
Foste ensinado a esconder de ti mesmo o teu lodo existencial.
Tu não suportas a ideia de, depois de tudo o que já viveste, afinal, és um animal selvagem. Como todos são. Sem exceção.
Eles dizem que eu sou frio, que não quero saber dos outros. Pois bem, se assim fosse, eu não me dedicava a tentar entender o humano como me dedico.
Na verdade, eu sinto mais do que aquilo que gostava de sentir.
Sinto o subtexto por detrás do que dizes, a mentira por detrás do sorriso, a intenção real por detrás do “altruísmo”. Sinto em demasia este teatro de máscaras. Sinto a energia da interação das pessoas, de tal forma que o teatro em si fica difuso.
A minha sensibilidade não é melhor que a tua, mas está calibrada para ver a verdade por detrás da mentira.
Os jogos de poder que movem a sociedade.
Eu não escolhi nascer com estes sensores.
Aquilo que mais me dói, ao sentir isto tudo, é ver o esforço que as pessoas fazem para que a máscara não caia, quando ela está na iminência de cair.
Os atores do palco trabalham incansavelmente para se esconderem de si mesmos.
Não gasto energia a esconder-me de mim mesmo. Seria um desperdicio.
Desperdicio a esconder-me da minha própria biologia e das minhas origens profundamente selváticas.
Gasto energia, isso sim, a olhar para tudo isso – doa o que doer –, estudar como funciona e tentar adquirir aprendizagens daí. Eu não nego o meu lodo existencial e herdado. Gasto energia a olhar para o meu espelho, para aprender com o que ele me mostra.
Do meu lodo, procuro criar ferramentas que me façam crescer.
Quanto maior a força que fazes – o gasto de energia – para te esconderes de ti mesmo, maior vai ser a potência com que o teu lodo vai querer entrar em erupção.
Este é o motivo pelo qual pareces calmo mas, pontualmente, tens surtos emocionais. Aqueles em que tu te perguntas – e os que estão à tua volta – como foi possível teres feito tal coisa (?).
São estes surtos psicóticos que te indicam que te escondes e o teu sistema já não consegue mais esconder.
Se te queres libertar desta prisão, conhece o teu animal selvagem e transforma-o no teu animal de estimação.
Alimenta-o, escova-o, limpa-lhe a areia e conversa com ele.
No fim, serás tu a escolher o como e quando ele se manifesta.
Mas lembra-te, ele vive em ti desde que o homem é homem. Não vais eliminar a energia dele.
Vais aprender sobre ela, brincar com ela e, quiçá, expressar-te através dela.
Eles dizem que sou arrogante, que tenho a mania. Mas eles não sabem sequer a vida subterrânea que está a acontecer dentro deles, enquanto dizem isso.

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