Curiosidade e fé

Esses senhores das bibliotecas, os arquitectos do conhecimento, devoradores de quanto tudo aquilo que o homem produz, na sua ânsia por se alimentarem e excretarem escritos, capturaram para os microscópios da ciência aquilo que de mais fundamental o homem tem. Capturaram para as suas arquitecturas lógicas aquilo que nunca funcionou no plano da lógica.

O homem fez-se com uma lanterna na mão e a fé na outra, adiante caminhando, sem nada saber sobre as propriedades da natureza que lhe aparecia à frente.

O homem fez-se através da sua mais sádica curiosidade. A curiosidade de saber que propriedades encontraria no mundo desconhecido do próximo passo. Não era preciso justificar nada. Não era preciso contabilizar nada. O estômago farto e uma boa noite de sono apenas dependiam das propriedades da natureza que à sua frente se lhe aparecia e do quão engenhoso o seu cérebro era para fazer uma sopa de descobertas. Foi certamente — por isso estamos cá — esta sopa de propriedades e engenhos, aquecida pela energia da curiosidade, que permitiu a multiplicação de cérebros.

Os cientistas, esses perversos seres, apropriaram-se da lanterna e meteram-lhe uma lógica.

Com este feito, aquilo que outrora era apontar uma lanterna e ir à procura, passou a ter que ser justificado — diga-se argumentado —, contabilizado e medido.

Estes perversos seres que cultivaram a vida apropriaram-se da mais nobre obra da natureza — refiro-me a nobre enquanto espasmo cósmico extraordinário — no planeta Terra, e começaram a pedir que o pensamento selvagem se justificasse perante o tribunal da lógica.

A partir daqui, a hipótese pensada deixou de ser guiada pela lanterna da curiosidade e passou a ser guiada por argumentação, com as suas premissas, válidas ou não, com o objecto de iluminar uma lógica desejada, tão forte quanto se deseja, a fim de não ser refutada.

A Filosofia deixou de ser sobre a magia do pensamento e as suas hipóteses cósmicas e passou a ser sobre o quão robusta é a argumentação.

A Filosofia, meus mais estimados perversos, nunca foi sobre a robustez de um sistema. Foi sempre pelo mais nobre acto da curiosidade. A curiosidade e a eventual capacidade de explicar aquilo que nem conseguimos ainda entender. E não temos que entender. A Filosofia é somente só sobre o momento em que, face a novas propriedades da natureza, ficamos atordoados por tal descoberta. Certamente não é descoberta nenhuma, visto que a natureza o é. Mas, nas nossas limitadas capacidades de processar o real, olhámo-lo pela primeira vez e ficámos espantados.

É esse o meio da Filosofia. O fim é o que tentamos fazer quando voltamos a casa e contamos aos nossos o nosso espanto, mesmo que nada eles entendam. Nem nós, muitas vezes, entendemos.

Mas não é o fim! Porque, quando o outro se espanta por aquilo que nos espantou a nós, está ele próprio a apontar a lanterna dele sobre o pedaço de realidade que lhe tentámos mostrar.

Por isso, a Filosofia não é sobre provar nem argumentar. É a mais nobre arte da curiosidade, guiada pela lanterna e pela fé.

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