Humor político, ao serviço do ressentimento

A presença de Ricardo Araújo Pereira no programa da RTP “Grande Entrevista” — um formato empiricamente sério — contém uma ironia trágica. A piada faz-se sozinha, contudo, desta vez não como mais um ressentimento contra o poder político, mas como o espantalho do palhaço a fazer-se passar por pessoa séria.

A mesma pessoa que se assume “palhaço”, Ricardo Araújo Pereira, cujo trabalho profissional é assumidamente humorístico — não humorístico per se, já lá vamos —, desempenha um trabalho de contra-poder.

Porquê contra-poder? O humor político, em Portugal, mas não só, é um exercício de restauro do equilíbrio emocional social. Ou seja, quando o povo, sob a figura de uma autoridade humorística, procura encontrar no discurso do político algo que sinta como falha discursiva, capta imediatamente esse erro retórico como forma de retirar ao político uma certa quantidade de poder, pegando nessa porção de conteúdo risível e transformando-a num objeto que sirva o seu — do povo — propósito. Como referi, o propósito é uma tentativa de atacar o poder para sentir, mesmo que por breves instantes, que o poder — ou uma fração dele — está do “nosso” lado.

Todo este exercício é, passo a redundância, um exercício de contra-poder. É um exercício daqueles que, não estando munidos de nada mais do que a palavra para fazer valer a sua vontade, recorrem ao discurso satírico com o objetivo de atacar o poder. É um movimento de ressentimento travestido de virtude. A virtude da palavra ao serviço dos ressentidos.

Mas não nos iludamos: fazer humor — a tentativa de fazer rir — não é, de todo, tarefa fácil. É necessário analisar o discurso do poder, encontrar aquilo que consideramos ser uma brecha no seu discurso sério, que tenta ser coerente e lógico. Nos dias que correm, sejamos sinceros, cada vez se abrem mais brechas, tal é a mediocridade retórica do discurso político. Contudo, na ótica do humorista, além de fazer esta análise ao discurso, ainda é necessária uma inteligência digna da sua posição, visto que escrever um texto potencialmente risível não o torna automaticamente risível. O humor, quando acontece, encontra o seu fim no riso do público; somente aí podemos afirmar que criámos humor. Ainda assim, pode resultar apenas com determinada pessoa. Se queremos encher teatros, temos de ser suficientemente bons para gerar um movimento coletivo de riso. É disto que Ricardo Araújo Pereira fala quando diz que, ao entrar numa sala, luta contra um bicho de mil cabeças. Não é exatamente esta a frase, mas fica a ideia.

Voltando ao Ricardo e àquilo que me fez rir: o palhaço Ricardo a tentar ser sério. É interessante percebermos que até uma pessoa que gasta grande parte da sua energia a investigar as incoerências do poder, para poder fazer as suas piadas e ganhar muito dinheiro com isso — sendo a referência do humor em Portugal — é a mesma pessoa que, pontualmente, tenta ser séria e permite, a mim, fazer uma análise do seu próprio discurso e perceber a sua postura incoerente. É o suprassumo do risível a fazer-me rir. Mas, como não tenho piada — ou acredito não ter —, resta-me o ressentimento de escrever um texto sério sobre um assunto “palhaço”.

Dá-me prazer, um certo gozo quase erótico, ver um humorista que tanto trabalha para retirar poder ao poder e partilhar esse “roubo” com os seus mais fiéis seguidores permitir-me, a mim, no canto da minha insignificância, roubar também ao humorista um pedaço da sua incoerência. Contudo, fico-me pela análise, pelo riso que a situação me provocou, e a única coisa que partilho é um texto chato — muito chato — que procura desmontar o ressentimento do povo, que procura desmontar a fragilidade da sua arma.

Podem dizer que a arma não é assim tão frágil, visto que, comprovadamente, dá dinheiro a profissionais do humor e alívio emocional a quem paga bilhete para tentar aliviar sofrimento. Entendo isso. Mas permitam-se — sem pedir autorização — rir-me ao ver tais pessoas a achar que estão a fazer parte de um movimento muito interessante, quando nada mais fazem do que tentar purgar sofrimento. O sofrimento daqueles que, face à ausência de poder para se equipararem ao poder dos políticos, procuram uma forma de ilusão de poder.

Aqueles que realmente procuram restaurar, de forma enraizada, o seu equilíbrio fazem o trabalho sério e energeticamente mais dispendioso de fazerem eles próprios algo que considerem útil para a sociedade. Algo tão útil que deixaria de haver humoristas, porque deixaria de haver matéria para fazer rir.

No fundo, encontramos o riso porque o sistema não funciona perfeitamente. Mas nunca funcionará, porque o humano é estúpido por natureza. O político é estúpido, o povo é estúpido e o humorista que se considera inteligente é estúpido. É estúpido também o sério que, perante a observação de todas estas dinâmicas, se considera erudito.

Em minha defesa, eu não sou humano. Sou bicho selvagem, não civilizado.

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