Concílio dos Mortos

Quando finalmente senti que ia sentir-me livre ao morrer, eis que me deparei com a maior crueldade possível: os mortos não me aceitaram na sua tribo. Questionei-me porquê, visto que, durante toda a minha vida, me senti completamente morto — comparando com os outros —, não pertencendo a nenhuma tribo. Senti-me no pior lugar que podia estar: entre a experiência da vida e o vazio.

Nem o vazio da morte me salvou da angústia de me sentir tão morto por a nenhum lugar me sentir pertencido. E eis que os mortos me revelaram o porquê de não me aceitarem, também eles, na tribo: afinal, eu não estava morto.

Estava ainda a sentir demasiado. E era justamente esse sentir demasiado que me tornava tão vivo, mas tão vivo, que não era eu que estava morto. Eram aqueles que realmente nada sentiam, mas agiam como se sentissem.

Foi um choque para mim quando aquelas almas sem corpo, ainda munidas das suas lanternas, me revelaram o segredo que jamais os mortos da vida me conseguiriam revelar. Aqueles cujo corpo se evaporou mantiveram a sua lucidez. O que morreu neles não foi a lucidez, foi o corpo. Disseram-me eles que eu ainda tinha muito corpo para sangrar. Fervia em mim ainda muito sangue.

Perguntei-lhes, então, como podia aliviar o meu sofrimento de me sentir tão vivo.

Eles recusaram responder-me e eu percebi porquê: eles mesmos foram esses mortos para a vida. E, quando o corpo lhes morreu, ainda havia ressentimento neles. Mas surgiu-lhes a clareza, também.

Fiquei preso na impossibilidade de voltar à experiência da vida e tentar contactar com outros de sangue a ferver e, por isso, nada mais me restava do que ferver por completo, até chegar o momento de perder energia e juntar-me aos mortos.

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