Todos alimentamos a máquina. A máquina é o sistema criado pelos humanos para — trabalhando em conjunto — desenvolver tecnologias que permitam facilitar o acesso e a obtenção de recursos. Essas mesmas tecnologias precisam da participação do humano, porque é a sua energia e o seu conhecimento que activam o mecanismo das tecnologias.
Com isto, quero dizer que as tecnologias não são o fim em si mesmas. Nós não nos alimentamos e não cuidamos da nossa saúde produzindo apenas tecnologias. Precisamos de lhes dar uso. Assim, é justamente esse uso dado que irá gerar um produto. Esse produto será consumido pelo humano.
Alimentar a máquina, portanto, é alimentar um sistema social — humano — cujo objectivo é todos contribuirmos na utilização dessa tecnologia, para todos criarmos produtos para uso pessoal, mas também para o outro usar. É uma máquina que tem por finalidade o “bem comum”.
Contudo, parece que o grande problema dessa máquina é que os seus fundamentos, no papel, parecem bem mais nobres do que quando vemos como ela é operacionalizada. Percebemos rapidamente que nem toda a gente usa essa máquina com a mesma vontade, durante o mesmo tempo, com a mesma energia e com a mesma eficiência e eficácia.
Perguntemo-nos porquê.
Parece-me, claramente, que o problema não está na máquina. Esta máquina, como está desenhada, serviu durante muito, muito tempo. Mas talvez já não sirva. Os princípios da sua elaboração continuam presentes; contudo, as circunstâncias nas quais estão contidos esses princípios mudaram muito.
Aqui, na praia, porém, acontece um fenómeno interessantíssimo: a suspensão da máquina.
É bonito ver tanto macaco a andar de galho em galho, esquecendo por completo a máquina. Mas faz sentido, visto que a máquina não foi construída para uso permanente e só deve ser usada quando assim for necessário. Quem quiser impor o contrário ao outro é um tirano.
Considero que o segredo para a máquina funcionar bem é precisamente a possibilidade da sua ausência. Isto é, qualquer máquina a trabalhar tempo demais aquece, até ao ponto em que rebenta. Nenhuma máquina foi desenhada — e aqui é importante realçar o “foi desenhada” — para trabalhar 24 horas por dia. Estou a falar de máquinas criadas pelo humano.
Por outro lado, o humano é, claramente, um bicho que está sempre a querer melhorar a máquina, mesmo quando ela já cumpre a sua função. Quando tudo é trabalho, produtividade, melhoria, carreira, eficiência, então a máquina já não serve o humano. O humano passa a servir a máquina.
Vale relembrar que a máquina foi construída para garantir a sobrevivência do humano.
Já não usamos a máquina para garantir a sobrevivência e depois descansar. Optimizamos a máquina para podermos trabalhar mais depressa, gerando um ciclo autorreferencial e infinito.

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